Nelson Rodrigues
6 Julho, 2007
Algumas citaçoes desse gêmio que falava o que pensava e não tinha papas na língua. Não gostavam muito dele, mas é compreensível, ele falava algumas verdades que não gostamos de ouvir.
A companhia de um paulista é a pior forma de solidão.
O homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual.
Só os profetas enxergam o óbvio.
Deus prefere os suicidas.
A morte é anterior a si mesma.
Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.
Todo desejo é vil.
A cama é um móvel metafísico.
Até 1919, a mulher que ia ao ginecologista sentia-se, ela própria, uma adúltera.
O brasileiro chamado de doutor treme em cima dos sapatos. Seja ele rei ou arquiteto, pau-de-arara, comerciário ou ministro, fica de lábio trêmulo e olho rútilo.
Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.
Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas reagem.
Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.
O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca.
O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.
Só há uma tosse admissível: a nossa.
Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma.
Não admito censura nem de Jesus Cristo.
Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.
Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.
Morder é tara? Tara é não morder.
Todo tímido é candidato a um crime sexual.
Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar.
O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro.
O amigo é um momento de eternidade.
O asmático é o único que não trai.
O casamento não é culpado de nada. Nós é que somos culpados de tudo.
A dúvida é autora das insônias mais cruéis. Ao passo que, inversamente, uma boa e sólida certeza vale como um barbitúrico irresistível.
Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.
Toda a história humana ensina que só os profetas enxergam o óbvio.
Amar é ser fiel a quem nos trai.
Acho a liberdade mais importante que o pão.
Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.
Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.
Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.
No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.
A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas nossas relações com o passado ficam alteradas.
Deus só freqüenta as igrejas vazias.
Copacabana vive, por semana, sete domingos.
Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!
A fome é mansa e casta. Quem não come não ama, nem odeia.
Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um são Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.
A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.
No passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal.
Não reparem que eu misture os tratamentos de tu e você. Não acredito em brasileiro sem erro de concordância.
Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.
Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro.
Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.
O cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor: – dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses
Não há ninguém mais vago, mais irrelevante, mais contínuo do que o ex-ministro.
Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.
O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.
Enquanto um sábio negro não puder ser nosso embaixador em Paris, nós seremos o pré-Brasil.
Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: – não façam literatice. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra.
Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos.
Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: – a nossa.
Sexo é para operário.
Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.
Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.
16 Agosto, 2007 at 1:37 am
Nelson Rodrigues seria o Oscar Wilde (hetero) brasileiro? hahahahah