O Buraco do Espelho & Através do Espelho
18 Julho, 2007
Arnaldo Antunes – O Buraco Do Espelho
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora
(Arnaldo Antunes)
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“Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos, e é isso qie nos assusta e nos faz ficar com um espelho mal polido eternamente, é tudo por medo de nós mesmos” (Jostein Gaarder)
Embriaguez
6 Julho, 2007
É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: “É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser”.
(Charles Baudelaire)
Nelson Rodrigues
6 Julho, 2007
Algumas citaçoes desse gêmio que falava o que pensava e não tinha papas na língua. Não gostavam muito dele, mas é compreensível, ele falava algumas verdades que não gostamos de ouvir.
A companhia de um paulista é a pior forma de solidão.
O homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual.
Só os profetas enxergam o óbvio.
Deus prefere os suicidas.
A morte é anterior a si mesma.
Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.
Todo desejo é vil.
A cama é um móvel metafísico.
Até 1919, a mulher que ia ao ginecologista sentia-se, ela própria, uma adúltera.
O brasileiro chamado de doutor treme em cima dos sapatos. Seja ele rei ou arquiteto, pau-de-arara, comerciário ou ministro, fica de lábio trêmulo e olho rútilo.
Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.
Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas reagem.
Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.
O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca.
O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.
Só há uma tosse admissível: a nossa.
Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma.
Não admito censura nem de Jesus Cristo.
Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.
Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.
Morder é tara? Tara é não morder.
Todo tímido é candidato a um crime sexual.
Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar.
O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro.
O amigo é um momento de eternidade.
O asmático é o único que não trai.
O casamento não é culpado de nada. Nós é que somos culpados de tudo.
A dúvida é autora das insônias mais cruéis. Ao passo que, inversamente, uma boa e sólida certeza vale como um barbitúrico irresistível.
Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.
Toda a história humana ensina que só os profetas enxergam o óbvio.
Amar é ser fiel a quem nos trai.
Acho a liberdade mais importante que o pão.
Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.
Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.
Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.
No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.
A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas nossas relações com o passado ficam alteradas.
Deus só freqüenta as igrejas vazias.
Copacabana vive, por semana, sete domingos.
Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!
A fome é mansa e casta. Quem não come não ama, nem odeia.
Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um são Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.
A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.
No passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal.
Não reparem que eu misture os tratamentos de tu e você. Não acredito em brasileiro sem erro de concordância.
Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.
Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro.
Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.
O cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor: – dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses
Não há ninguém mais vago, mais irrelevante, mais contínuo do que o ex-ministro.
Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.
O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.
Enquanto um sábio negro não puder ser nosso embaixador em Paris, nós seremos o pré-Brasil.
Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: – não façam literatice. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra.
Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos.
Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: – a nossa.
Sexo é para operário.
Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.
Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.